Discurso de Anúncio da Candidatura

Excelências,
Caros concidadãos,
Caras e caros Amigos,
Minhas senhoras e meus senhores,

Cinco anos dois meses e vinte e cinco dias depois, aqui estou de novo, neste emblemático local, rodeado pela minha mãe, pela Lígia, pelas minhas filhas, irmãos e demais familiares, por quase todos os amigos que aqui estiveram comigo nessa altura, com a mesma ansiedade, a mesma emoção e determinação para, através de todos vós dizer, solenemente, aos cabo-verdianos, no país e no estrangeiro, que sou candidato à Presidência, da mais querida venerada República, a República de Cabo Verde.
Há cerca de cinco anos, treze anos depois de deixar as lides partidárias, apresentei um pacto. Propus que as pessoas acreditassem e fossem parte de um projecto que ambicionava uma abordagem diferente da função presidencial.
Apresentava-me com uma trajectória politica, cívica, profissional, académica e intelectual que podia justificar a minha pretensão de propor que ensaiássemos algo diverso, que acreditássemos ser possível e necessário encarar a possibilidade de realizar uma Presidência da República com características muito específicas.
Mas, na época, não era seguro que pudesse contar com os necessários apoios para fazer vingar uma candidatura presidencial. A decisão de me candidatar não foi uma decorrência de entendimentos ou negociações, legítimas em democracia, e que resultam, geralmente, de intricadas e prolongadas articulações.
Ainda que a decisão se tenha tornado irreversível após o inequívoco acordo da minha família e o apoio incondicional de muitos amigos, o momento inicial foi de solidão absoluta. Sem dúvida, a decisão mais solitária que alguma vez tomei na vida.
Importantíssimos apoios, nomeadamente do MpD e de políticos e personalidades de todos os quadrantes, vieram reforçar a candidatura que se foi robustecendo até a vitória a 21 de Agosto de 2011.
Já na altura, a todos nos motivou a profunda convicção que as pessoas necessitavam de uma Presidência diferente e de uma diversa relação com o seu titular.
Foi o início de tudo. Silenciosamente, esse processo foi-se estruturando, transformando-me num Presidente, metamorfoseando um cargo político constitucionalmente consagrado numa relação. Numa poderosa relação que até os que nela não se revêm a tomam por referência.
Talvez não seja exagerado afirmar que fui e sou o que as pessoas me fizeram. Concederam às minhas autonomia e liberdade uma natureza outra.
Se a ligação inicial foi silenciosa, a sua consolidação alimentou-se de vida assumida, de vida vivida, por via de palavras, discursos, mensagens, propostas, críticas, desacordos, apoios, mas sempre pautado por algo não raro desconforme com a ortodoxia protocolar, por algo que, amiúde, fugia às exigências da formalidade política – a autenticidade.
Conviver com a realidade, por vezes dramática, da nossa gente, ensombrou-me inúmeras vezes o coração. Contemplar o rosto quase acusador de crianças famintas ou de jovens com poucas perspectivas de futuro, deixaram-me, vezes sem conta, mergulhado numa grande perplexidade, que longe de me paralisar, impelia-me a buscar inspiração e motivação, na perseverança dessa gente que do nada cria a vida, inventa a cultura, domestica a própria rocha e, simplesmente, é a mais autêntica expressão da beleza do mundo.
O pacto traduziu-se na imperiosa, permanente e exaltante afirmação da unidade nacional no país e na diáspora. Brandindo a bandeira da cultura, através, nomeadamente, da língua, da música, da literatura, das artes plásticas e outras expressões artísticas, incansavelmente, transportei a cabo-verdianidade pelos quatro cantos do mundo, vivenciando a dimensão quase infinita que ela empresta à nossa alma, projectando-a para níveis que ultrapassam de muito longe as nossas contingências geográfica e populacional.
O carácter identitário da nossa cultura e, por isso, o seu grande potencial unificador da Nação, num mundo que tende para uma perigosa homogeneização cultural, tem sido um factor de grande coesão que tenho procurado potenciar na relação estabelecida com os criadores.
Ao longo destes cinco anos, tenho procurado caminhar com as pessoas. Numa osmose que por vezes perturba, tenho-me transformado em cada uma delas, sem deixar de ser eu próprio, o Jorge.
Em diversas oportunidades procurei estar com os cabo-verdianos que vivem e labutam no exterior. Essa realidade permite que os cabo-verdianos de Mosteiros, Boston, Rabil, Chã de Matias, Luanda, Selada das Chapas, Cova da Moura, Chã d’Alecrim, Rotterdam, Fragata, Água de Gato ou Moçambique se identifiquem como tal e é ela que explica o milagre do forte apego a Cabo Verde de largos de milhares de pessoas que nunca pisaram o chão das ilhas.
Por ter a noção da transcendência da cultura cabo-verdiana, sempre procurei acalentá-la, participando e promovendo eventos culturais, convivendo e estimulando os diversos criadores e abrindo-lhes as portas do Palácio da Presidência.
O meu reconhecimento às mulheres e homens de cultura foi em diversas circunstâncias concretizado através da concessão de condecorações a muitos residentes ou não no país.
Caros Amigos e conterrâneos,
Talvez não seja descabido dizer que, nessa relação com as pessoas, através da qual a identidade do Presidente se constrói e se recria, a política adquiriu para mim uma dimensão que diria quase sublime.
A sua finalidade, pelo menos teoricamente continuou a ser a mesma: “realizar o bem comum”. Mas quando esse “comum” é muito mais que o somatório de muitas pessoas, de muitas necessidades, para ser, também, a seiva da vida, a fronteira entre a poesia, a política e a vida fica muito ténue e ganha uma qualidade outra.
Desde o momento zero defini a Constituição como o meu “caderno de encargos”. Foi uma fórmula encontrada para transmitir a ideia de que, na concretização do projecto presidencial, a Lei Magna tinha de ser simultaneamente a matriz, o limite e a inspiração da função presidencial.
Na verdade, sempre defendi que a Constituição muito mais do que uma compilação de preceitos que definem os fundamentos da organização do Estado e da sociedade, bem como o relacionamento entre as diferentes esferas de poder, contém programas de vida das pessoas em diferentes fases, situações e circunstâncias.
Sempre entendi que essa obra fundamental para a nossa sociedade, que traduz com fidedignidade as nossas principais opções, carecia de algo. Não apenas dos inevitáveis aperfeiçoamentos resultantes de revisões constitucionais, mas de alguma coisa que consubstanciasse a sua essência mais profunda.
Por isso, assumir a Constituição como o meu caderno de encargos significava, para além do escrupuloso respeito pela sua letra e pelo seu espírito, na qualidade de seu principal garante, a ingente e permanente tarefa de contribuir para que fosse de facto apropriada pelos seus verdadeiros destinatários: os cidadãos.
Procurei assumir na plenitude esse encargo, fazendo desse importante caderno a minha bússola em todas as circunstâncias e, fundamentalmente, procurando partilhá-la com todos. Promovi a Constituição da República através da edição e distribuição de milhares de exemplares da Carta Magna, de apoio à sua edição em braille e audio, e também pela via de debates constantes, com académicos, políticos, donas de casa, jovens, trabalhadores.
Quase obsessivamente procurei sempre contribuir para a edificação de uma cultura da Constituição.
Mas a sua realização pressupõe, também, naturalmente, a estruturação do edifício constitucional. Empenhei-me, no quadro dos limites prescritos pela Constituição, denodadamente, na criação de condições para que todos os órgãos nela previstos vissem a luz do dia, sendo o Tribunal Constitucional um dos seus exemplos mais eloquentes e exigidos a bem da fiscalização mais especializada da Lei Fundamental.
Ao longo destes quase cinco anos, fiel às minhas promessas e às minhas convicções, procurei ser um intermediário activo entre as pessoas que dão vida ao país e as diferentes instâncias com capacidade e obrigação de concretizar os seu desejos e aspirações legítimas.
Caros concidadãos,
O exercício da função presidencial implica o relacionamento do Presidente com os diferentes órgãos de soberania, cuja concretização, entretanto, depende, em parte, da interpretação, desses normativos pelos respectivos titulares.
Procurei, neste particular, de forma muito clara, os superiores interesses da Nação no quadro dos poderes que a Constituição confere ao Presidente da República e numa perspectiva de sua interdependência.
Essas relações foram, no essencial, correctas, não obstante a existência de naturais divergências, nomeadamente com o poder executivo. Quando tal ocorreu, busquei permanentemente a via do diálogo e da concertação num quadro de lealdade institucional.
Contudo, nas situações em que essa conduta não foi suficiente para ultrapassar as diferenças, em relação a questões vitais para o país, não hesitei, com ponderação e independência, em utilizar os instrumentos de que dispunha, como a palavra para influenciar, criticar ou explicar, o poder de veto e o pedido da fiscalização da constitucionalidade das normas.
Essas situações, aliás normais em democracia, ocorreram algumas vezes. Porventura, o momento mais marcante em termos de relacionamento institucional deu-se a 9 de Abril de 2015, quando, num ambiente de muita tensão social, após aturada reflexão, decidi vetar politicamente o Estatuto dos Titulares de Cargos Políticos, o qual tinha sido aprovado pela Assembleia Nacional por unanimidade, reenviando-o ao Parlamento para ser reapreciado.
Não foi uma decisão fácil. Não foi fácil pôr em causa um posicionamento adoptado e apoiado, praticamente, pela totalidade dos principais actores políticos. Foram longas as horas de meditação. O facto de a Assembleia Nacional não ter voltado a analisar o diploma revelou, indirectamente, concordância com a medida adoptada.
Não obstante a tensão vivida nessa ocasião, a situação foi resolvida, mais uma vez, no quadro do normal funcionamento das instituições. Esse e outros episódios traduzem a estabilidade política e institucional do país, não obstante a existência de sérios problemas de ordem económica e social, com relevantes consequências, nomeadamente na esfera da segurança.
Estimadas e estimados Amigos,
O período compreendido entre 2011 e 2015, durante o qual exerci quase todo o mandato, foi caracterizado por uma situação económica muito difícil, com uma taxa de crescimento do PIB real que oscilou de 4,0% em 2011 para 1,1% em 2015, um desemprego médio que esteve sempre acima de 14,2% e que, na faixa etária dos 20-24 anos, ultrapassou os 28% em 2015, e um stock da dívida pública que, em 2015, ultrapassou os 121%.
Este quadro que resulta da conjugação de factores internos e externos, como a crise económico-financeira que afecta os nossos principais parceiros, com destaque para a União Europeia e que tem limitado, de forma muito significativa, a actividade das empresas, também, assoberbadas por uma elevada carga fiscal, tem tido consequências sociais muito importantes.
Nesse contexto, ao qual se juntam as dificuldades do meio rural resultantes, em grande parte, das reduzidas precipitações pluviométricas e níveis muito elevados de desemprego, os rendimentos das famílias sofreram depreciações muito importantes, o que terá contribuído para o aumento de algumas mazelas sociais como o alcoolismo, a violência e a criminalidade.
Relativamente ao alcoolismo, recordo que desde o início do meu mandato procurei alertar o país para a gravidade do problema, através de uma perseverante intervenção. De forma sistemática, discursei e debati a questão nos mais diversos cenários, alertando para a urgente necessidade de medidas sistemáticas de prevenção e tratamento dessa patologia.
Ao longo desse período foi possível mobilizar dezenas de entidades públicas e da sociedade civil para a realização de uma campanha nacional de prevenção do uso abusivo de álcool, por mim patrocinada, e que teve início no passado mês de Julho, contando, também, com a participação da OMS.
Quanto à violência, defendo que ela deve ser prevenida e controlada através de medidas de política que incidam sobre as suas causas, como o desemprego, a exclusão, os comportamentos de risco, bem como da estruturação e no equipamento das forças de segurança, em bases técnicas, operacionais e científicas para que, efectivamente, sempre no respeito pela legalidade, combatam a criminalidade e a violência que têm condicionado a vida das pessoas, especialmente nos principais centros urbanos.
Tendo em conta a sua natureza quase clandestina, não obstante a sua acentuada gravidade, dediquei uma atenção especial à violência doméstica.
Assim, a convite das Nações Unidas, assumi a liderança, em Cabo Verde e na diáspora, de um programa, He For She (Ele por Ela) dessa instituição, desenvolvida a nível mundial com o objectivo de promover a igualdade de género.
Foi com muito orgulho que verifiquei que Cabo Verde foi, a nível africano, o país que melhores resultados obteve nessa área tão complexa.
Excelências, caros Amigos e Companheiros,
Para além de intervenções específicas, para contribuir para a resolução dos graves problemas sociais, acompanhei a sua evolução, através do diálogo directo com o Governo e do contacto com os agentes sociais e com os cidadãos.
Inúmeras vezes, por iniciativa minha ou em resposta a solicitações, reuni-me com líderes de organizações sindicais e de organizações empresariais e com especialistas nacionais e estrangeiros conhecedores das questões sócio-económicas nacionais e internacionais.
Com frequência, ouvi cidadãos comuns. Escutei as suas angústias, as suas perplexidades, ilusões e aspirações. As donas de casa falaram-me dos seus problemas familiares, os jovens de Monte Trigo – após ter desembarcado da lancha que me conduziu até à praia e de referirem que era a primeira vez que um governante ia à localidade – falaram das suas expectativas, os camponeses de Figueiras em Santo Antão discorreram sobre a falta de chuvas (que por acaso chegou no dia da minha visita a essa que deve ser uma das mais encravadas zonas do país), os criadores de gado de Ribeira Grande de Santiago morrendo por falta de pasto, os moradores de Chã das Caldeiras, com o orgulho tipicamente foguense, no meio da dor e do sofrimento provocados pela erupção vulcânica, abordavam as perspectivas de futuro, enquanto na encravadíssima localidade de Achada Lagoa no Tarrafal de Santiago preferiu insistir na eterna problemática do acesso.
Problemas diversos, mas um denominador comum: a certeza de que é necessário lutar e que eu posso ser um aliado nessa epopeia. Essa cumplicidade, diria essa amizade, deu-me muita força e um grande sentido de responsabilidade.
Contudo, devo realçar que essa força é também alimentada por importantes momentos de exaltação nacional, como os proporcionados na área da música, teatro e outras formas de expressão artística e na do desporto, com particular destaque para os Tubarões Azuis na CAN 2013, para os campeões paralímpicos, para a selecção olímpica e para os campeões dos desportos náuticos.
Caras amigas, caros companheiros,
Durante o meu mandato, e em consonância com as promessas feitas, dediquei uma particular atenção ao poder local. Sempre defendi que ele é uma das mais importantes conquistas da nossa democracia, pois permite ao cidadão um contacto quase directo com as instituições do poder público, melhores condições para resolver determinados problemas das pessoas e a estas um maior controlo sobre o exercício do poder.
Entendo que ele deve ser reforçado, porque isso significa o aprofundamento da democracia e, por seu intermédio, podemos combater um dos grandes problemas do nosso país que são as assimetrias regionais irrazoáveis.
Nessa linha defendi, creio que sem grande sucesso prático até agora, o que chamei de discriminação positiva em relação aos municípios de menores dimensões populacionais e com menores recursos, como forma de ascenderem a níveis mais elevados e equilibrados de desenvolvimento.
O combate dessas assimetrias é, também, uma via para fazer face a um dos graves problemas que nos afecta e que pode fazer perigar a coesão social, ou seja, as desigualdades que não cessam de aumentar.
Nesta linha, estimulei e apoiei todas as medidas institucionais que objectivam consolidar o regime democrático, pois a democracia necessita de instituições fortes. Mas também insisti na necessidade de se fortalecer outros pilares do sistema democrático, como uma Justiça cada vez mais bem estruturada e independente, uma sociedade civil actuante e uma imprensa verdadeiramente plural e independente.
A consolidação do regime democrático sempre foi uma minha grande e permanente preocupação. Por isso procurei, de forma pedagógica mas firme, combater as tendências habituais em várias latitudes de sacrificar as liberdades em benefício da segurança.
Nas mais variadas circunstâncias tenho defendido que a liberdade é um valor e a segurança uma condição. A defesa da segurança não pode pôr em causa aspectos essenciais do exercício da liberdade, a não ser em situações excepcionais.
Concidadãs e concidadãos,
Na qualidade de Chefe de um Estado como o nosso, tenho a exacta noção da grande importância de que se reveste a política externa e do papel essencial que o Mais Alto Magistrado da Nação pode ter no reforço das relações de cooperação bilateral e multilateral, na defesa de princípios e valores essenciais nos fora internacionais e no estreitamento das importantes relações com a diáspora.
Nessa linha, representei com o maior afinco o nosso país na ONU, nas Cimeiras da União Africana, da CEDEAO e da CPLP e visitei diversos países relevantes para as nossas relações económicas e políticas e para a nossa emigração.
Pela sua importância e simbolismo, destacaria as visitas de Estado a Angola e S. Tomé e Príncipe, a visita ao Papa Francisco, a participação, nos Estados Unidos da América, na Cimeira África-América presidida pelo Presidente Obama e a memorável visita à União Europeia.
As visitas a Cabo Verde dos Presidentes Maky Sal do Senegal e Pinto da Costa de S. Tomé e Príncipe e do Grão Duque de Luxemburgo devem, também, ser realçadas, pela importância que encerram.
As relações com a CPLP e com os PALOP sempre mereceram atenção muito especial da minha parte, nomeadamente pelo facto de os países que as integram estarem a passar por situações de alguma delicadeza.
Caras e caros compatriotas,
As Forças Armadas cabo-verdianas mereceram da minha parte, na qualidade de seu Comandante Supremo, a maior atenção. Procurei reforçar a sua natureza republicana e apoiar a reforma em curso. Porém, os recentes e trágicos acontecimentos em Monte Tchota vieram demonstrar que é necessário uma profunda reflexão em torno das nossas Forças Armadas.
Necessitamos discutir o modo como, nos tempos actuais, o seu papel constitucionalmente definido deve ser concretizado, quando o conceito de segurança sofreu importantes modificações ditadas pela emergência de ameaças de tipo novo, como o terrorismo e o crime transnacional.
Caras e caros Amigos,
No passado dia 27 de Julho, por imperativo legal e de acordo com interpretação sugerida pela CNE, suspendi as funções presidenciais por ter declarado a intenção de me candidatar ao cargo de Presidente da República e passei a ser substituído pelo Sr. Eng.º Jorge Santos, Presidente da Assembleia Nacional.
A seguir a essa declaração recebi o apoio formal do Movimento para a Democracia.
Agradeço de forma muito penhorada, na pessoa do Sr. Dr. Ulisses Correia e Silva, Presidente daquele partido político e Primeiro-Ministro, essa manifestação de confiança e asseguro-lhe que, se eleito, trabalharei, no quadro constitucional, com o Governo que dirige para o reforço do Estado de Direito Democrático e para a concretização das aspirações da nossa população, sempre com a independência e imparcialidade que as funções presidenciais reclamam.
Agradeço ao Eng.º António Monteiro, Presidente da União Cabo-verdiana Independente e Democrática e Deputado da Nação, pelo apoio pessoal que publicamente expressou em relação à minha candidatura. Reitero ao nobre deputado todo o meu empenho em, caso seja eleito, continuar a trabalhar para o efectivo bem-estar de todos os cabo-verdianos.
Estendo, por fim, os meus agradecimentos ao Sr. José Augusto Fernandes, Presidente do Partido do Trabalho e da Solidariedade pelo apoio expresso publicamente à minha candidatura.
Caras e caros Amigos,
O mundo de hoje continua a apresentar como característica marcante a grande volatilidade dos diferentes processos nas esferas económica, politica e social.
A nível económico prevê-se um crescimento de 3 a 4% desigualmente distribuído, o que poderá contribuir para o agravamento de problemas sociais em várias partes do globo, para além dos decorrentes dos milhões de deslocados pelas mais diversas razões.
O crescimento económico previsto para o nosso continente é de aproximadamente 6%.
A ameaça terrorista continua a marcar a agenda política e os problemas ambientais a merecer a atenção aturada dos decisores.
A instabilidade política e diferentes conflitos permanecem em várias regiões de África, nomeadamente na nossa sub-região, e o radicalismo islâmico é uma realidade, não proveniente da religião em si, mas de certas interpretações que a utilizam com motivações político-económicas.
O nosso país terá de estar muito atento à complexa realidade internacional e regional, para, a cada momento, poder identificar os riscos e as oportunidades e agir em consonância. Outrossim, tem de reavaliar o sentido, as prioridades e a própria densidade de sua política de relações externas, adaptando-a às exigências do processo de desenvolvimento do país e reconfigurando o aparelho institucional interno e externo.
Em Cabo Verde ocorreram, recentemente, grandes mudanças politicas. Um partido, o MPD, após quinze anos na oposição venceu, de forma expressiva as eleições legislativas e autárquicas.
As expectativas das populações são muito grandes e os meios para a sua resolução não estão imediatamente disponíveis. Penso que será necessária muita ponderação e bastante pedagogia para resolver os problemas que for possível resolver de imediato e explicar, com clareza, as razões pelas quais a resolução de outros demanda tempo.
O MPD tem, para além da obrigação de procurar responder as legitimas aspirações dos cabo-verdianos, a responsabilidade de tudo fazer para que o sistema democrático funcione na plenitude e, muito particularmente, de assegurar os direitos de todas as minorias.responsabilidade que, naturalmente, cabe em primeira linha ao Presidente da República.

Cabo-verdianas e cabo-verdianos,
A decisão de me candidatar a um segundo mandato foi tomada após longa e profunda reflexão, depois de uma aturada avaliação do meu mandato e de ouvir os que me são mais próximos.
Não obstante todos os cuidados que rodearam a tomada de posição sobre matéria tão importante, ela surgiu como consequência da profunda e estreita relação estabelecida com as pessoas que conduziu à construção de um perfil de Presidente que alia emoção, afectividade, verdade, democracia, liberdade, dignidade e rigor, o qual quero continuar a assumir.
Ao longo do percurso foi possível, no concreto, dar continuidade à realização de importantes preceitos da nossa Constituição que procurei, de facto, assumir como o meu caderno de encargos.
Não escondi que me entregava à função presidencial com paixão, com muita paixão. Hoje tenho dúvidas se esta é a expressão mais correcta para designar a ilimitada motivação que me impeliu a exercer essa função vinte e quatro horas por dia.
A paixão é um sentimento muito forte, por vezes avassalador, tem duração normalmente limitada. No meu caso, ela não cessa de crescer e a duração parece não ter fim. Por ser cada vez maior a minha profunda motivação para continuar a caminhada com as pessoas do meu país, de forma muito decidida, entendi por bem prosseguir na via de colocar todo o meu conhecimento, toda a minha experiência, e sobretudo, todo o meu amor ao serviço da minha gente.
No estrito cumprimento das normas constitucionais, com espírito de diálogo, com independência e respeito institucionais, pretendo contribuir para que a economia cresça de forma sustentada, duradoura e inclusiva, a educação assuma a função de preparar cidadãos mais capacitados e comprometidos com os valores mais nobres da sociedade e combater as inaceitáveis desigualdades sociais e regionais.
Neste quadro, a minha contribuição será também no sentido do aprofundamento do Estado de Direito Democrático, garantindo em permanência o equilíbrio no funcionamento do sistema político e suas instituições, do fortalecimento de uma Justiça acessível a todos, de fazer dos problemas dos jovens uma prioridade nacional e de um permanente estreitamento das relações com a diáspora.
A unidade nacional será a pedra de toque dos meus propósitos, que terá na valorização e promoção da nossa cultura nas ilhas e na emigração o seu instrumento privilegiado.
Caras e caros companheiros,
Pretendo, sempre com as pessoas, continuar a caminhada, tudo fazer para que o nosso país seja cada vez mais livre, mais democrático, mais moderno e, sobremaneira, mais justo.
Como no mandato que está a terminar, prosseguirei na senda da busca de concertação, do entendimento e da conciliação. Como sempre, colocarei o interesse do país acima de tudo e os legítimos interesses das pessoas no centro das minhas atenções.
A razão de ser da minha candidatura é a contribuição que pretendo continuar a dar para que todos tenham a possibilidade e oportunidade de realizar o seu sonho.
Conto com todos os cabo-verdianos na nova caminhada que hoje fazemos juntos, não deixando de votar no próximo dia 2 de Outubro. Em democracia, não há vencedores antecipados e as eleições não são entronizações de indivíduos ungidos por qualquer dimensão divina, mesmo quando em anos sucessivos tenha uma avaliação muito boa e boa elevadíssima e a atravessar todos os segmentos sociais e todos os partidos políticos. Eleger implica apresentar e debater ideias, construir projectos de futuro para uma Pátria, com elevação e seriedade. Apelo, pois, a que se não deixem levar por eventuais ideias pré-concebidas de que estas presidenciais estão decididas. Uma eleição só está decidida quando o Povo fala nas urnas. Não deixem que outros falem por vós! Digam nas urnas, no dia 2 de Outubro, SIM à LIBERDADE, SIM à DEMOCRACIA, SIM à JUSTÇA.
Conto com todos e cada um de vós neste percurso, na certeza de que as nossas vitórias serão as vitórias do nosso amado país!

Viva a Liberdade e a Democracia!
Viva Cabo Verde!
Muito obrigado
Jorge Carlos Fonseca